Aprender a enfrentar a ansiedade matemática

Os 4 primeiros passos para lidar com este desafio

A ansiedade matemática é um dos maiores desafios que temos quando estudamos. Para muitos a matemática é um colosso inultrapassável que afecta profundamente as nossas emoções, a nossa capacidade e, consequentemente, o nosso desempenho académico. O desafio está em como ultrapassá-la, ou será que o colosso simplesmente não existe?

ansiedade matemática

A matemática nunca foi o meu forte. Por exemplo, só à terceira tentativa é que fiz com sucesso a disciplina de Probabilidades e Estatística. No entanto, hoje, é das disciplinas que mais uso, sobretudo quando faço tratamento estatístico de dados ou procuro compreender o que esse tratamento significa na prática. A um dado momento percebi que a matemática é uma linguagem, basta aprender a “falar” a sua língua. Mas como existe em muitos uma resistência natural diante do seu aspecto aparentemente complexo, a inclinação para a ansiedade matemática cresce.

 

Ansiedade matemática ou uma questão de gosto?

Fiquei muito impressionado com um artigo recente de Jorge Buescu sobre a primeira mulher a receber o prémio Fields, considerado como o Nobel da matemática, Maryam Mirzakhani. Infelizmente, Maryam faleceu de cancro três anos depois de ter recebido este prémio, mas a sua história é inspiradora. Irei salientar alguns aspectos que me parecem relevantes para a questão da ansiedade matemática.

Maryam queria ser escritora e não era boa aluna a matemática.

Foi o seu irmão que estimulou nela o gosto pela matemática com pequenas e simples histórias como a de Carl Gauss. Aos 7 anos de idade o professor de matemática de Gauss pediu aos alunos que calculassem a soma de todos os números de 1 a 100. Passado poucos segundo Gauss responde 5050.

A solução era simples.

Ele reparou que 1 + 100 = 101, 2 + 99 = 101, 3 + 98 = 101. Ou seja, a soma dos pares feitos de números que vão de 1 a 50 com os que vão de 100 a 51 dava sempre 101.

Logo, a solução era somar 50 x 101 = 5050.

Maryam aqui percebeu a elegância e simplicidade de algumas soluções em matemática e da curiosidade que despertam.

Maryam pensava a matemática com desenhos, de tal modo que a sua filha achava que era pintora.

Ao ler a experiência de Mirzakhani pensei se não haveria nela um pequeno rasgo de luz sobre como lidar com a ansiedade matemática. Parece haver 4 aspectos que poderão reduzir a ansiedade matemática.

 

Desenvolver o gosto

Gostos não se discutem, cultivam-se. E cultivam-se com histórias. Histórias que nos inspiram. Em matemática inspiram-nos mais as soluções curiosas do que o fascínio por alguma inteligência superior que as desenvolve. É a beleza da sua simplicidade que nos ajuda a ter uma visão diferente sobre o assunto.

Se desenvolveres o gosto pela matemática através de curiosidades pode ser um primeiro passo para diminuir a ansiedade.

 

Desenvolver esboços

A matemática não é só números. O pensar visual é cada vez mais importante no modo de compreender, explicar e conceber conceitos. E desenhar o que não se entende, nem que seja através de um mero rabisco, pode tornar-se um aspecto cada vez mais inovador no pensamento matemático.

Desenhar ajuda-nos a relaxar e dá espaço ao que está dentro de nós. Se desenhar aumenta a confiança daquilo que sabemos, a ansiedade diminui.

 

Desenvolver a criatividade

A matemática pode ser vista como um jogo. Mais do que um divertimento, gera envolvimento. Tudo aquilo que não nos envolve e pouco tem a ver com a nossa vida, pouco interessa. Assim, o passo da criatividade quando encaramos a matemática como um jogo, pode ajudar a aprender a lidar com a ansiedade matemática.

 

Aprender a dar passos pequenos

Por vezes, olhar para o todo matemático, seja num problema, um conceito, uma demonstração, entre muitas outras coisas, pode assustar. Aqui é importante partir em pequenas partes até que sejam simples de compreender.

O todo nem sempre é igual à soma das partes, mas quantas vezes é preciso começar pelas partes para perceber o todo…

Não é fácil lidar e superar a ansiedade matemática, mas é possível dar os primeiros passos e acreditar.


Questão: qual é a tua maior dificuldade em lidar com a ansiedade matemática?

Professor Universitário e Investigador do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra.