“Trabalho profundo” para desenvolver a nossa capacidade de concentração

3 lições para um semestre de sucesso académico

Nos últimos dias tomei contacto com o conceito de trabalho profundo. Como definido por Cal Newport, são “actividades profissionais realizadas num estado de concentração livre de distracções que levam as nossas capacidades cognitivas ao seu limite. Estes esforços criam novo valor, melhoram as nossas capacidades, e são difíceis de replicar.”

Trabalho profundo de Cal Newport

Ao longo dos anos fui sentindo que a minha produtividade não é como era e questionei-me: porquê… Talvez seja por isso que comecei a aprofundar este tema da produtividade. Não só porque senti que os meus alunos pudessem beneficiar com isso, mas – tal como eles – também eu precisava de perceber a razão de sentir-me menos produtivo.

Um dos aspectos centrais eram as rotinas. Muitas das actividades eram realizadas com base na necessidade do momento, sem estrutura, e acabava por não ter tempo para as actividades em que produzia alguma coisa como um artigo, melhoramentos num algoritmo, etc.

Mas cedo entendi que o maior desafio à produtividade e capacidade de estar concentrado eram “trabalhos superficiais”. Estes, também definidos por Cal Newport como ”exigências não cognitivas, tarefas lógicas, muitas vezes realizadas enquanto distraídos. Estes esforços tendem a não criar novo valor no mundo e são facilmente replicáveis.” O mais evidente eram os emails.

A procrastinação disfarçada de um “preciso de relaxar”, a consulta sistemática do smartphone para ver se tinha um novo email e responder logo, independentemente de estar onde estivesse e a fazer o que estivesse a fazer, são exemplos de actividades superficiais.

Agora de inicias o semestre, repara nas vezes que consultas o teu smartphone (se o tiveres), repara nas vezes que és tentado a consultá-lo durante as aulas, ou durante o estudo. Num artigo anterior já me referi a este tipo de distracções e como podemos aprender a focar melhor.

Hoje, partilho as lições que me inspiram relacionadas com este trabalho profundo, de modo a começares a desenvolver a capacidade de o realizar cada vez mais e melhor.

 

Mais trabalho profundo, menos consulta de emails

Esta foi a primeira lição. Ao reflectir bem sobre o impacte que tinha responder logo aos emails percebi que não exige estar sempre a consultá-los, mas posso antes escolher horas específicas do dia para o fazer e criar assim mais uma rotina. Experimenta.

 

Ligar o modo “Do not disturb

No ambiente macOS, ou iOS, existe um botão para não sermos perturbados com notificações. Se puderes, usa isso ou algo semelhante para não haver qualquer notificação enquanto fazes algo que exige a tua concentração. Por exemplo, ler um livro, escrever um texto, ou estudar.

 

Poupar o cérebro de trocas constantes de atenção

Está demonstrado que mudar constantemente o nosso foco de atenção produz um efeito negativo duradoiro sobre o nosso cérebro. Consultar um email, continuar a ler um texto, mudar para responder à última mensagem de WhatsApp ou Messenger, voltar à leitura do texto. Enfim, sem nos darmos conta estamos a “fritar” o cérebro e a afectar as nossas emoções. Vejam esta TED talk de Clifford Nash.

Se estás aborrecido e, por isso, cedes às tentações das distracções, não estás preparado para o trabalho profundo e irás senti-lo quando sabes que podes ir mais longe e não consegues.

Basta.

Toma hoje a decisão de mudar.

O trabalho profundo é uma capacidade que requer treino. Marca horas na tua agenda para as redes sociais, consulta de emails e outras comunicações. Inclui as distrações no tempo marcado para trabalho profundo, em vez do contrário.


Questão: sentes que a tua capacidade de concentração se perde com a troca constante de focos de atenção?

Professor Universitário e Investigador do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra.