A Revolução Doodle

A arte de visualizar que altera a realidade e ajuda a pensar

Alguma vez sentiste dificuldade em escutar a palestra de alguém? Durante uma aula ou acção de formação? Muitos pensam que nessas alturas, ao rabiscar, entraram em modo de desconcentração total, mas a ciência mostra que se trata, precisamente, do contrário. O termo internacional para esses rabiscos como modo de atingir um maior grau de concentração é doodle. Está na altura de aprender a potência subjacente a essa capacidade.

Photo by Asher Legg on Unsplash

Photo by Asher Legg on Unsplash

Na sua experiência profissional de ensinar a linguagem visual a trabalhadores de empresas, Sunni Brown, autora do livro ”The Doodle Revolution,” confronta-se com o facto das pessoas pensarem que doodlar é anti-intelectual e contra uma aprendizagem séria. Daí que até ao ensino universitário, os professores penalizem quem o faz, mas nem sabem o que estão a fazer a esses jovens.

O que é doodlar?

Um doodle deve ser pensado como fazer marcas espontâneas (com o corpo e a mente) para te ajudar a pensar.

Exacto. Ajudar a pensar.

Brown convida todos a ver o doodle de um modo positivo e funcional, e desenvolver ao máximo a sua utilidade. Exemplos de pessoas conhecidas por fazerem doodles são Steve Jobs (fundador da Apple) ao caminhar, Einstein com o seu violino e Nikolai Tesla com a mente. Neste sentido, o doodle não se restringe a desenhar, mas estende-se a outras formas de pensar (física, artística, mental, etc.).

Quais as vantagens de um doodle?

Existem essencialmente três ganhos com a prática do doodle:

  • Poder cognitivo Ajuda a expandir a mente; reter, compreender e relembrar mais informação; aumentar o número e a qualidade de ideias criativas.
  • Desempenho organizacional Capacidade da visão do todo (Big Picture); maior e mais profundo envolvimento em grupos de trabalho; desenvolver o pensamento criativo, estratégico e crítico; aumentar a capacidade de resolver problemas e ser inovador; maior eficácia em reuniões de trabalho; melhor partilha de memória e registo visuais daquilo que se faz.
  • Gozo pessoal Maior e melhor capacidade de concentração, relaxamento e abertura de possibilidades de ir mais além naquilo que se pensa e cria.

Porque retém a informação?

Desde cedo que somos seres visuais (excluindo, claro, os casos particulares das pessoas que sofrem de cegueira). Daí que o acto de visualizar é fundamental na retenção de algo em memória. Basta pensar nos filmes que vimos, em como sabemos contar a outros as cenas que mais nos impressionaram e, por vezes, com um detalhe notável.

Assim, fazer um esquema que traduza aquilo que estamos a ouvir, ou fazer um simples rabisco, é – no caso do esquema – um modo visual de registar algo que nos queremos lembrar, ou – no caso do rabisco – um modo visual de nos ajudar a focar naquilo que a pessoa está a dizer (sobretudo quando é aborrecida a falar).

Exemplo de um Doodle

Exemplo de um Doodle

Porque nos oferece foco, relaxamento e possibilidade?

O quadro actual da vida moderna é bem caracterizado por Sunni Brown ao afirmar que,

”o cérebro humano não está feito para prestar atenção a muitos objectos em simultâneo. Pode somente dar atenção sequencial, a uma coisa de cada vez, e, quando trocamos sistematicamente entre tarefas, reduzimos, significativamente, a eficácia com que realizamos cada uma.” ( The Doodle Revolution, p. 30)

Aliás, esta troca sistemática de tarefas induzida pela invasão dos écrans no nosso quotidiano é um dos factores de redução drástica da nossa capacidade de concentração. O doodling facilita a entrar num estado de fluxo e reverter o estrago causado, relaxando-nos.

Por fim, o que muitos atletas aplicam para melhorar o seu desempenho consiste numa técnica de visualização onde se imaginam vezes sem conta a fazer determinados movimentos. Depois, basta executá-lo ou, pelo menos, treinar com a visualização em mente. A ideia do doodle é a de nos dar a possibilidade de alterar a realidade através da visualização, como nos atletas. As nossas experiências não se reduzem apenas ao que vemos, mas incluem o que pensamos (mente), contribuindo para o que conhecemos e tudo isso muda aquilo que é possível.

A prática do doodle envolve actos intelectuais, criativos e físicos que exigem o funcionamento de várias redes neuronais em simultâneo. Daí o impacte que os doodles podem ter no nosso desempenho em qualquer processo de aprendizagem. Seria bom que em todos os cadernos onde apontamos as nossas notas houvesse espaço livre para doodlar. Experimenta!

Para saber mais sugiro a consulta do livro de Sunni Brown, The Doodle Revolution, bem como da sua TED talk.

Professor Universitário e Investigador do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra.