A quarentena por detrás do génio

Em 1665, a Grande Praga atingiu Londres, e a descoberta da bactéria que a gerou só aconteceu 200 anos depois. A recomendação na altura foi a do distanciamento social, como agora nos sugerem. Na Universidade de Cambridge suspenderam-se as aulas e os alunos tiveram de ir para suas casas como medida para atrasar a pandemia. Entre eles encontrava-se Isaac Newton.

A família de Newton vivia em Woolsthorpe Manor, uma quinta que ficava a cerca de 100km de Cambridge. Não tinha os professores para o orientar nas matérias leccionadas e, mesmo assim, Newton avançou o conhecimento como jamais alguém havia feito.

Começou por trabalhar problemas de matemática que havia deixado incompletos quando saiu de Cambridge e o que escreveu nesse período, tornou-se o início da sua obra sobre o Cálculo. Adquiriu uns prismas e começou a fazer experiências no seu quarto, furando uma das persianas para deixar um pequeno feixe de luz entrar e foi daqui que surgiram as suas teorias sobre Óptica. E, claro, da janela do seu quarto em Woolsthorp havia uma árvore com… maçãs.

Sim, foi neste período de quarentena que Newton teve os primeiros pensamentos que deram origem à teoria da gravitação que revolucionou o nosso modo de compreender o mundo.

Newton voltou a Cambridge dois anos depois, em 1667, com algumas teorias na mão. Em seis meses entrou como assistente e, dois anos mais tarde, tornou-se professor.

Estamos em casa e pensamos que nada podemos fazer. Sentimo-nos desconfortáveis com os momentos de solitude em que nos encontramos a sós com os nossos pensamentos. A mente vagueia e a vontade cede à mais simples fonte de entertenimento online. Mas talvez valha a pena recordar este exemplo de Newton.

Estar em casa é uma oportunidade para nos deixarmos inspirar pelo conforto sem estrutura ou ritmos ditados pelos horários a cumprir. Podemos ter algumas responsabilidades a responder, mas é maior o tempo em que podemos, simplesmente, experimentar coisas novas.

Deixar que os momentos de tédio dêem asas à nossa imaginação e quem sabe as ideias que poderão surgir, inesperadamente, como rasgos de génio.

Professor Universitário e Investigador do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra.