Sobre o tempo

”Não tenho tempo.” – este é um dos maiores dramas da nossa cultura. Porém, quando temos razões fortes para fazer alguma coisa, há sempre tempo. Ou se queremos fazer algo que gostamos, também existe tempo. Quer isso dizer que será a necessidade e o gosto condicionam o tempo que temos?

Talvez seja o modo como percepcionamos o tempo que o condiciona. O tempo tem uma seta. Isso significa que não volta atrás. E quando queremos representar este tempo que não volta atrás usamos uma linha. Essa representa uma sequência de momentos únicos e irrepetíveis. Mas se pensarmos nos rituais que preenchem o nosso tempo, dando-lhe um ritmo cíclico, será mais um círculo que imaginamos, cuja expressão mais comum é um relógio.

Ainda que o tempo tenha uma direcção e um sentido, ou que seja para nós uma realidade cíclica, reduzir a percepção do tempo as estas duas perspectivas é limitar a experiência temporal e a possibilidade aberta por novas perspectivas.

O tempo como linha dá a ideia de que todos os momentos possuem a mesma importância, quando isso não é verdade. Há eventos que, passado algum tempo, perdem influência sobre o presente ou deixam mesmo de fazer sentido. E possibilidades futuras perdem gradualmente impacte sobre o presente, enquanto não se concretizarem em acontecimentos, seja de natureza prevista ou contingentes.

O tempo como algo cíclico dá a ideia de que tudo se repete e não muda, quando isso também não é verdade. Os relacionamentos aumentam em complexidade no tempo e essa é a origem da evolução que faz história no nosso universo.

Haverá, por isso, formas melhores de representar o tempo, de modo a dar-nos uma percepção diferente da experiência temporal e da novidade abertas por diferentes perspectivas do tempo?

“Ver” o tempo com mais atenção

Quando incluímos o tempo no nosso pensamento, o mais comum é pensar na linha do tempo, em eventos sequenciais ou cíclicos, sendo essa a imagem que construímos na nossa mente. Mas, como dizia o historiador de arte Herbert Read, muitas vezes as imagens precedem as ideias. Por isso, se quisermos pensar de um modo diferente e novo, precisamos de mudar as imagens.

Um capítulo que li de Stuart Albert, Professor Emérito da Escola de Gestão de Carlson na Universidade do Minnesota, despertou a minha atenção para este aspecto de mudar o modo como desenhamos algo cuja importância muda com o tempo. Existem dois exemplos interessantes. A projecção em V e o tempo como polifonia.

Tempo em V

Imaginem o número de visualizações de um site de notícias. Se a plataforma que gere esse site for a WordPress, o gráfico que apresenta corresponde a uma linha temporal.

Mas será que as visualizações de notícias passadas produzem o mesmo impacte no presente? Creio estarmos de acordo que as notícias próximas do tempo presente são mais relevantes do que as passadas. Assim, se a representação fosse feita antes em V, o resultado seria diferente.

Neste caso, o ângulo de relevância refere-se ao efeito que o presente tem sobre o passado. Se o passado, por exemplo, for tão relevante quanto o presente, bastaria diminuir o ângulo e, em última análise, obteríamos o primeiro gráfico. Se o passado não tivesse qualquer importância sobre o presente, o ângulo tenderia para 90º e bastaria uma barra.

Por outro lado, o facto de usarmos uma linha temporal contínua ou cíclica, limita o tempo a uma sequência de eventos, quando a realidade não é feita de uma só, mas múltiplas sequências simultâneas. Quantas vezes não nos confrontamos com pessoas que têm ritmos diferentes? A beleza de uma melodia polifónica não está em todos os instrumentos terem o mesmo ritmo, mas no facto de estarem sincronizados. O tempo visto como uma polifonia resulta numa perspectiva que Stuart Albert chama de arquitectura temporal.

”A arquitectura temporal é a arte e ciência de encontrar, criar, analisar, e usar padrões do estilo musical. Estes padrões, que possuem a estrutura vertical e horizontal das pautas musicais, formam-se quando múltiplos processos estão alinhados, sincronizados, sobrepostos, ou, caso contrário, relacionados entre si no tempo. O tempo de vida destes padrões pode variar de segundos a anos. A arquitectura temporal inclui o estudo das funções ou propósitos que subjazem a estes padrões, as qualidades e significados que expressam, as emoções que provocam, as intenções que realizam ou resistem, e, talvez o mais importante na prática, as acções que permitem ou proíbem.

A vantagem da visão do tempo como uma pauta musical é a de superar as distracções.

Tempo como Polifonia

Todos sabemos da importância de fazer escolhas saudáveis na nossa alimentação. Num estudo sobre o auto-controlo, o economista Thomas Schelling (1921-2016) descreve como uma empresa ajudou os seus trabalhadores a criar hábitos de alimentação mais saudáveis.

Quando estamos saciados, a nossa capacidade de fazer escolhas saudáveis é maior. Por isso, quando escolhemos o que queremos almoçar na hora de almoço, aumenta a probabilidade de escolhermos comidas menos saudáveis. Assim, esta empresa pedia aos seus trabalhadores para fazerem a encomenda do almoço quando chegam ao trabalho, em vez de o fazerem no intervalo de almoço. Por um lado, do ponto de vista empresarial, o controlo de custos dos ingredientes necessário para os almoços era maior, desperdiçando-se menos comida, mas do ponto de vista da alimentação dos seus trabalhadores, estimulava a escolhas mais saudáveis.

A visão por detrás deste exemplo é a do tempo como polifonia com duas sequências sincronizadas. Uma sequência associada às decisões sobre a alimentação e outra sequência associada ao ritmo fisiológico de cada trabalhador.

A arquitectura temporal deste exemplo de Stuart Albert, como nas polifonias musicais, possui:

  • Pontuações temporais: Pequeno-almoço, chegada ao trabalho e almoço. No gráfico não incluí o pequeno-almoço, mas é a pontuação temporal que permite o trabalho entrar na polifonia saciado.
  • Intervalos:o intervalo de chegada ao trabalho e decisão do almoço, e o intervalo entre a escolha e a hora de almoçar. Se a encomenda fosse feita no horário de almoço, a sensação de fome seria maior e, em vez de ser o raciocínio lógico a decidir o que comer, seria o sistema límbico que procuraria a saciedade e, muito provavelmente, escolheria uma alimentação menos saudável.
  • Taxa: a velocidade com que uma pessoa fica com fome depois do pequeno-almoço.
  • Métrica: esta composição polifónica ocorre em horas ou minutos, não em dias ou semanas.

O que este exemplo demonstra é a capacidade humana de experimentar a co-existência de múltiplas sequências que afectam as suas decisões. Assim, num processo de aprendizagem, seja em âmbito escolar ou profissional, o sucesso irá depender mais do modo como sincronizamos as diversas sequências que dão ritmo à nossa vida, e não tanto por uma visão linear do tempo que limita o nosso campo de acção.

Se mudarmos a nossa perspectiva do tempo para uma mais polifónica, o grau de concentração em relação às múltiplas sequências aumenta. Passamos a ter uma atenção mais plena sobre o tempo que nunca se possui, mas vive-se.

Professor Universitário e Investigador do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra.