Tempo: o primeiro tema mundial de auto-ajuda

Como fazer do tempo um motor de transformação pessoal

São milhões os livros que circulam pelo mundo inteiro, e em múltiplas as línguas, destinados à auto-ajuda, ou seja, pretendem contribuir para o desenvolvimento pessoal de cada um, mas alguma vez se questionaram sobre qual foi o primeiro livro no mundo deste género?

O seu autor foi Arnold Bennett, intitula-se “Como viver com 24 horas por dia” e, sim, é dedicado ao tempo.

O livro publicado em 1908, há mais de 100 anos, é escrito numa era pré-digital, mas não deixa de nos surpreender pela sua actualidade em diversos aspectos.

O milagre do tempo

Numa cultura em que se considera que “tempo é dinheiro”, já Bennett reconhecia que o tempo é muito mais do que dinheiro. Aliás, quem tem tempo pode gerar dinheiro, mas o contrário não é inteiramente verdade. Pois, ninguém ganha tempo quando o tempo é uma realidade que nos é dada diariamente.

”A oferta de tempo, verdadeiramente, é um milagre diário.” (A. Bennett)

Ninguém fica a dever tempo a alguém, apenas podemos desperdiçá-lo nos momentos que passam.

”Não pode gastar o amanhã. Ele está-lhe reservado. Não pode gastar a próxima hora. Ela está guardada para si.” (A. Bennett)

Precaver o tempo

Não há dúvida de que saber aprender a lidar com o tempo é um dos aspectos mais importantes da nossa vida. Há quem se questione por onde pode começar ao que Bennett responde – ”Meu caro senhor, começa simplesmente.”

O processo de aprendizagem envolve a nossa vontade e a sua preparação cujo tipo não é de todo evidente.

”Se não está preparado para desânimos e desilusões, se não se contentar com um pequeno resultado para um grande esforço, então não comece. Deite-se e volte à desconfortável sonolência a que chama a sua existência.” (A. Bennett)

Apesar de medirmos o tempo com um relógio, o que mede a sua utilidade é o grau de consciência plena que temos daquilo que se passa connosco e à nossa volta. Nem tudo correrá bem, mas será a coragem de persistir, em vez de desistir, que nos desperta para o modo como estamos a viver o tempo que nos é dado em cada dia. Porém, tudo depende de nos apercebermos da importância que têm as pequenas coisas, as pequenas vitórias, independentemente do esforço.

”Sou totalmente a favor do êxito insignificante. Um fracasso estrondoso não leva a nada, enquanto um êxito insignificante pode levar a um êxito que não seja insignificante.” (A. Bennett)

Pensa em todos os êxitos que te pareceram não ter valor e desperta para a possibilidade de esses abrirem o teu horizonte a êxitos maiores.

Lidar com o tempo

Todos nós queremos aproveitar o melhor possível o tempo que temos, mas isso depende da nossa capacidade de organizar, mentalmente, o dia dentro de um dia, as 24horas.

Em primeiro lugar, pensemos no tempo que passamos sem conseguir fazer nada de útil. Uma viagem de comboio ou autocarro, uma fila de trânsito ou de espera, são inúmeros os exemplos. Na prática, são momentos de solidão ou quietude.

Os momentos de quietude não devem ser entendidos como quando nos isolamos de tudo e todos, mas antes a oportunidade que nos é dada de nos encontrarmos com os nossos pensamentos.

Depois, a confusão em organizar o nosso tempo pode ser uma manifestação do estado de cansaço do nosso corpo. A solução, curiosamente, passa pelo exercício físico. É surpreendente como 10 a 30 minutos por dia podem mudar o nosso aspecto físico ao longo do tempo. O mesmo acontece com a nosso intelecto. Quantos problemas não exigem esforço cognitivo, mas estamos demasiado cansados, precisamos de relaxar e segue-se o vegetar. Não resulta.

”Por que é que há-de ficar surpreendido por uma hora diária, em média, dedicada ao intelecto, despertar, consideravelmente, toda a actividade mental? Podemos dedicar, sem dúvida, mais tempo a cultivarmo-nos. E, proporcionalmente, quanto mais alargado for o tempo, maiores serão os resultados.” (A. Bennett)

Isto implica uma mudança de hábitos. Basta começar com pouco de cada vez e ser consistente, não tanto frequente. Se dedicares 10 minutos por dia à leitura de um livro de não-ficção, pouco a pouco, aumenta a tua capacidade de pensar e interpretar o que lês e pensas. Sobretudo, adquires uma maior consciência do modo como estás a lidar com o tempo.

Tempo de concentração

O tempo é uma experiência mental. Daí que haja momentos da nossa vida em que o tempo parece que pára, enquanto noutros, o tempo passa depressa demais. É uma percepção relacionada com a capacidade de concentração.

”As pessoas queixam-se da falta de capacidade de concentração, sem se aperceberem de que podem adquirir essa capacidade, se optarem por fazê-lo. (…) Sem a capacidade de concentração (…) a verdadeira vida é impossível. O controlo da mente é o primeiro elemento de uma existência plena.” (A. Bennett)

Podemos treinar este aspecto através de uma meditação produtiva quando nos concentramos num tema em momentos de transição durante o dia. Por exemplo, quando nos deslocamos a pé de um sítio para outro, durante uma viagem em que não somos o condutor, ou quando passeamos o cão. São momentos em que a mente pode vaguear e pensar naquele problema ou resposta a dar. Quando menos esperamos, sentamo-nos, e a solução ou resposta parece vir à mente naturalmente.

”Com a prática regular da concentração (quanto à qual não há segredos, excepto o da perseverança) pode comandar a sua mente a qualquer hora do dia e em qualquer lugar. Só tem de a exercitar.” (A. Bennett)

Tempo de reflexão

Uma vez que trabalhamos o controlo da nossa mente e estamos mais conscientes do modo como usamos o tempo, abre-se a possibilidade de aprender algo que não encontramos na literatura, arte, história ou qualquer ciência. É uma ideia que pode revolucionar a tua consciência do tempo.

Estuda-te!

Mais do que nos conhecermos, creio na existência de um grande potencial transformador se nos estudarmos. Quais as razões de determinado comportamento, escolha, atitude? Mas, para isso, é importante aprender a reflectir.

”Estou absolutamente convencido de que o que mais está a faltar na vida do homem comum bem-intencionado de hoje é a atitude reflexiva.” (A. Bennett)

Esta atitude não é bem a de pensar em nós próprios, ou sobre nós próprios, mas antes uma auto-observação. Ser curioso em relação ao modo como agimos, estar atento, observar bem e ter consciência plena disso.

A maior parte das pessoas que anda ao sabor da próxima tarefa a cumprir, ou possui a atenção dominada pela próxima notificação, vive a dormir.

Quando aprendemos a estudarmo-nos, sentimos a necessidade de estar alerta, despertos, conscientes das nossas escolhas. O tempo é um recurso grátis, renovável, mas finito. É isso que lhe dá valor e te valoriza quando o aproveitas. Estuda-te e no tempo transformar-te-ás em quem sonhas ser.

Professor Universitário e Investigador do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra.