Há vantagens em escrever à mão?

Redescobrir o valor da tua caligrafia

No início deste semana lancei o KeepUp – Journal que implica escrever à mão. Numa era tão digital como a nossa fará ainda sentido desenhar o nosso dia à mão, escrever algo no diário positivo, ou mesmo tirar notas?

Existem diversas vantagens dos estudantes tirarem notas à mão por melhorar a sua apredizagem como verificado em diversos estudos. Mas quando se trata de um planificador dos nossos dias, semanas, meses, objectivos e hábitos, haverá vantagem em escrevê-los à mão?

O valor do que escrevo à mão

Escrever à mão custa mais e começa a ser raro. E o que é raro cria valor. Daí a importância daquilo que se escreve com a mão, seja para quem lê como para quem escreve. Na prática, o que escrevemos com a mão ganha um valor superior para nós e contém os mesmos traços de um compromisso com grande significado.

Por outro lado, o que escrevemos à mão tem um sentido de permanência que podemos recordar mais tarde e, quem sabe, compreender melhor o percurso de vida que fizemos.

”Assim como ver uma fotografia de quando éramos crianças, encontrar a escrita à mão que reconhecemos como nossa, mas que agora parece apenas familiar pode inspirar-nos a um confronto com o mistério do tempo.” (Francine Prose, Escritora)

Comparado com a escrita digital…

…o que escrevemos à mão não é editável, tornando-se mais genuíno e memorável, dando-nos uma perspectiva da vida que de outro modo não seria possível.

  • Escrever à mão leva-nos a focar mais no conteúdo.
  • Escrever à mão é uma parte dinâmica da nossa linguagem, ligando as formas aos sons, aumentando ainda mais a compreensão do conteúdo.
  • Escrever à mão é uma actividade multi-sensorial que estimula a paciência cognitiva, melhorando a nossa capacidade de aprender.
  • Escrever à mão ajuda na memorização, estando associado às nossas capacidade visuais e motoras. Daí que um estudo tenha confirmado um desempenho superior em estudantes que tiravam notas à mão. A menor velocidade da escrita favorece o processamento daquilo que se ouve e vê, contribuindo para uma maior retenção em memória da nova informação.

Redescobrir o valor da nossa letra

Quando há mais de um ano comecei a planear o dia seguinte no anterior, escrevendo à mão o que pensava fazer, dei-me conta de que há muito tempo que não estava habituado a ver a minha letra.

”Enviar uma carta escrita à mão tornou-se uma anomalia. Está a desaparecer. A minha mãe é a única pessoa que ainda me escreve cartas. E existe algo de visceral quando abrimos uma carta – eu vejo-a na página. Eu vejo-a na sua letra.” (Steve Carrell, Actor Norte-Americano)

Lembro-me do tempo em que procurava definir a minha letra por ser algo pessoal que marcava o meu traço único. Não é por acaso que a assinatura de John Hancock na Declaração de Independência dos Estados Unidos da América é a maior. Pois, indica o valor que dava à caligrafia. Também para Steve Jobs, fundador da Apple, a caligrafia foi o ponto de inspiração para o design dos tipos de letra que incluiu no primeiro Macintosh.

Quanto mais escrevermos à mão, mais descobrimos sobre nós próprios. Isto é particularmente relevante na caligrafia chinesa e japonesa. Aliás, ao estudá-las, o psicoterapeuta Robert Gunn concluiu que a caligrafia é um modo de auto-descoberta e auto-desenvolvimento que nos abre a um diálogo com a cultura e connosco próprios.

É verdade que apesar de produzir um efeito introspectivo, a caligrafia quando partilhada com os outros, sobretudo em notas de agradecimento pessoais ou cartas, estimula e aprofunda os relacionamentos.


É este o sentido e significado do KeepUp – Journal. Ser uma experiência de encontro com a nossa caligrafia e como recorrer a essa para organizar a nossa vida. Uma experiência que convido cada um a descobrir.

Existe para os que quiserem uma versão impressa do KeepUp – Journal em argolas ou capa dura (Hardcover) em Lulu.com.

Professor Universitário e Investigador do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra.