Inserir a vida quotidiana no processo de aprendizagem

Por onde começa uma nova atitude mental?

Um dos grandes desafios à aprendizagem consiste em inserir no conhecimento que se pretende adquirir a experiência de vida de cada um, a vida quotidiana. Por vezes estamos tão focados na fórmula a usar, ou na regra que deve ser aplicada, que nos esquecemos da razão e ser da fórmula e da regra.

Experiência de vida quotidiana

Por começa a arder

Por exemplo, num exame que fiz, um dos exercícios tinha a ver com a ignição de um lenho de madeira maciço. Há uma aproximação do lenho a uma figura geométrica regular como o cilindro e, depois, o lenho tem de aquecer até chegar às condições para sofrer ignição e arder.

Começa a arder

Se pouco percebes de transmissão de calor e perguntar-te por onde começa a arder, a primeira impressão que tens é – “que raio de pergunta…” – e talvez penses que estou a perguntar se começa pela esquerda, direita, em todo o lado ao mesmo tempo, etc. Porém, como um problema destes no contexto de Transmissão de Calor tem graus de complexidade diferentes dependendo da posição que estiver a analisar, tinha alunos a questionar se essa ignição se dava no eixo central do cilindro ou na periferia, sendo o lenho maciço. Curioso.

Em ciência, como em qualquer outra área do conhecimento, é fundamental ter sempre presente a nossa experiência de vida. O desafio está em como persuadir aquele que aprende da importância que isso tem no processo de aprendizagem.

 

Uma nova atitude mental

Há aqui a necessidade de uma nova atitude mental. Quando falo com os meus filhos que estão em períodos escolares que vão desde o básico ao secundário sobre o que aprendem e o modo como aprendem, percebo que o ensino está ainda formatado a um contexto fabril.

Os alunos devem fazer o que é suposto fazer, do modo como é suposto fazer e na sequência com que é suposto fazer. Eu percebo a origem desta abordagem e parece-me positiva. Isto é, a ideia é a de criar hábitos que permitam desenvolver tecnicamente determinadas capacidades. Quando essas estão desenvolvidas, é muito mais evidente entrar no estado de “fluxo”, num fluir de ideas, de acordo com Mihaly Csikszentmihalyi, de tal modo que estimulamos muito mais a criatividade naquilo que fazemos.

Se, por um lado, é preciso estar feliz com o que se faz e ter algum gosto nisso, por outro, é necessário desenvolver as capacidades para ter algum controlo e especialização que nos permita ir além “do que é suposto.”

Do filósofo Pasquale Foresi aprendi ser preciso que o estudo seja vida e, enquanto não incluirmos o contexto do nosso quotidiano naquilo que estamos a aprender, mais lentamente iremos desenvolver a capacidade de aprender qualquer coisa.


Questão: para ti é fácil sair da fórmula e fazer entrar a vida naquilo que estás a aprender? Qual a maior dificuldade que sentes?

Professor Universitário e Investigador do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra.