Uma Palavra-Mestre para o século XXI

A redescoberta do essencial na era digital

A medicina é fundamental para cada pessoa e todos dão valor à formação dos médicos, pois, a nossa vida pode, literalmente, depender do seu desempenho e do que aprenderam e aprendem com os diversos avanços na medicina.

Sir William Osler foi um dos marcos da medicina moderna e no livro que publicou em 1906, Aequanimitas, incluiu diversos discursos, alguns feitos aos estudantes. Um desses – capítulo XVIII – pode ser particularmente interessante para os nossos tempos: ”A Palavra-Mestre em Medicina”

Sir William Osler (1849-1919)
Sir William Osler (1849-1919)

«a grandeza da escola reside nos cérebros, não nos tijolos.» (Sir W. Osler)

Todos pensamos e alguns, sobretudo os estudantes, são pensadores profissionais. Por isso, cuidar do nosso cérebro significa cuidar de uma parte importante de nós que permite sonhar e dar passos para realizar esses sonhos.

Quando Sir Osler pensava no momento em que entrou para a escola de medicina dizia ser «o princípio de uma vida feliz num chamamento feliz.» De um modo ou de outro, o que fazemos da nossa vida vive nesta tensão entre os afazeres e o que nos sentimos chamados a fazer. E da harmonia entre estes dois aspectos que surge o sentido de realização pessoal e profissional. Mas a nossa vida está a ser profundamente afectada pela entrada da era digital na cultura, de tal modo que alterou, profundamente, o modo como nos comportamos, aprendemos, agimos e sonhamos.

Por outro lado, existem pequenas palavras que podem influenciar muito o nosso agir e sentido de estar. E dessa experiência provém a “Palavra-Mestre” que Sir Osler partilha com os alunos daquela época e que hoje podemos re-descobrir o seu valor. Sobre essa palavra diz,

«Apesar de pequena, a palavra-mestre está cheia de significado. É o “abre-te sésamo” de cada portal, o grande equalizador no mundo, a verdadeira pedra filosofal, que transmuta toda a base metal da humanidade em ouro. (…) Com a palavra mágica no teu coração, todas as coisas são possíveis, e sem ela, todo o estudo é vaidade e vexação. Os milagres da vida estão com ela; os cegos vêem pelo tocar, os surdos ouvem com os olhos, e os mudos falam com os gesticular. Para a juventude traz esperança, para a meia-idade confiança e para a idade avançada repouso.»

Enquanto lia estas palavras pensava – ”mas que palavra será?” – até que a revela.


Trabalho


Nada de valor na vida se consegue sem trabalho. Porém, todos experimentamos o trabalho como um hábito importante e duro. Só a criação de hábitos e o desenvolvimento da nossa capacidade de concentração nos permite extrair valor do trabalho. Algo que a era digital veio compremeter seriamente. Contudo, Sir Osler oferece algumas sugestões que podemos experimentar.

  • O primeiro passo para o sucesso em cada trabalho é interessar-se por ele.
  • O modo de tirar o máximo partido das nossas capacidades, com a menor tensão possível, consiste em cultivar um sistema. A aquisição sistemática de hábitos é difícil, mas se começarmos com pouco de cada vez, evoluimos.
  • Cultivar o poder da concentração que cresce com o treino, de modo a aprender a controlar a nossa atenção. Para isso, a constante repetição faz com que o hábito entre na mente. Assim, cada pessoa conseguirá explorar toda a sua potencialidade de trabalho.
  • Só se fortalece a mente, usando-a.
  • Ter um olhar crítico sobre o que não é essencial.

Mas uma das mensagens que destacaria é quando Sir Osler diz,

«Nós estamos aqui, não para extrair tudo o que pudermos da vida para bem próprio, mas tentar tornar a vida dos outros mais feliz.»

Sinto que deixámos de ensinar esta ligação entre trabalho e vida feliz.

A razão de muitas desilusões na vida provém de nos darmos conta de que durante muito tempo não investimos no desenvolvimento das nossas capacidades de trabalho. E, mais cedo ou mais tarde, acabamos por pagar o preço. Mas ser feliz com o que se faz é sempre possível.

Quando encontramos o caminho que faz da palavra-mestre – trabalho – um motivo de sermos felizes com o que fazemos, é natural querer transmitir aos outros o fruto da felicidade que experimentamos. E isso é um bem contagiante.

Professor Universitário e Investigador do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra.