O que é um estudante universitário?

Três sugestões para cuidar do cérebro dos pensadores profissionais

Se perguntar a um estudante qual a sua profissão, 99% responde-me estudar. Compreendo a resposta porque estudante, no fim de contas, vem da palavra estudar. Mas não é essa a profissão de um estudante.

Foto de Victoria Heath em unsplash
Foto de Victoria Heath em unsplash

A profissão de um estudante, seja em que idade for, é pensar. Se aceitarmos que um estudante é um pensador profissional, a perspectiva muda totalmente. A parte central que processa o nosso pensar é o cérebro. Por isso, do mesmo modo que um jogador profissional não pode sair da sua dieta rigorosa porque afecta o seu corpo e, naturalmente, o seu desempenho, tudo o que afecta o nosso cérebro é importante cuidar bem porque influi sobre o nosso pensar.

Partilho três sugestões que ajudam a cuidar do cérebro dos pensadores profissionais.

Leitura

Um dos modos mais básicos de cuidar do pensar é a leitura, pois, ler aguça o pensamento. Quem gosta de ler tem mais facilidade em pensar. A leitura reduz o stress ao diminuir o ritmo cardíaco e a pressão sanguínea, melhora a nossa memória, aumentando o potencial do nosso cérebro e, ainda, melhorando as nossas qualidades empáticas.

Ler aumenta a longevidade, aumenta a conectividade cerebral, altera o tecido cerebral e melhora a conectividade neuronal, ou seja, ajuda em múltiplos sentidos a pensar mais e melhor.

Competências

Quem pensa desenvolve competências. Ninguém deve questionar a capacidade que tem de desenvolver competências. O que deve questionar é se as suas opções de vida favorecem ou não esse desenvolvimento.

Desenvolver competências não se faz mudando sistematicamente o que procuramos aprender. Ninguém aprender a tocar guitarra num dia, ou uma determinada matéria antes de ser avaliado por exame (como acontece frequentemente). Se a atitude diante da dificuldade inerente ao desenvolvimento de uma competência é mudar, nunca iremos aprender, porque o problema não está em termos ou não talento para alguma coisa, mas na atitude cognitiva.

As competências não se mudam, mas os comportamentos sim. Com o comportamento certo podemos desenvolver as competências que nos levam ao sentido de realização que sonhámos atingir. E mudar os comportamentos passa pela criação de hábitos.

Encontro interior

Pensar é um acto interior, seja fisica- ou psiquicamente. Quando pensamos encontramo-nos interiormente com os nossos pensamentos e vivemos um momento de silêncio cognitivo. Algo difícil na cultura actual.

O problema de deixarmos o nosso capital de atenção ser consumido com coisas de pouco valor real, e mais valor instantâneo, como é o caso de uma mensagem recebida, ou notificação, tempo sem conta passado nos murais de redes sociais a verificar como está a popularidade daquilo que publicamos, são tudo outras mentes, que não a nossa, a dominar a nossa atenção e, consequentemente, o nosso pensar.

Estimular o encontro com os pensamentos em momentos de tédio é um modo simples e expedito de lhes dar um sentido produtivo. Pode ser a tentar resolver aquele problema matemático; ou a relembrar os músculos dos braços aprendidos na aula de anatomia; ou a lógica por detrás das leis, ou regras jornalísticas, ou acontecimentos históricos; reviver na mente os passos de uma dança; re-imaginar alguns mecanismos em engenharia, ou de uma cadeia de reacções químicas; em qualquer coisa que estejamos a aprender.

Uma atenção focada no encontro interior com o nosso pensar, não é só um dos segredos para ultrapassar o tédio, mas talvez o que nos leva a entender como extrair mais do tempo que pensamos ser um desperdício.

Professor Universitário e Investigador do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra.