Sempre a aprender para não envelhecer

Quatro ferramentas para começar

A velocidade da inovação tecnológica actual é muito superior da que tínhamos há 10 ou 20 anos. E isso não afecta apenas a nossa vida pessoal, onde podemos ou não escolher aderir a uma nova tecnologia, mas entrou sobretudo no mundo empresarial. Não faz mais sentido dizer “já não tenho idade para aprender isso.” Como afirma Arie de Geus, o responsável pelo Grupo de Planeamento Estratégico da Shell Oil Company,

“A capacidade de aprender mais rápido que os nossos competidores pode ser a única vantagem competitiva sustentável.”

aprender a aprender

Aprender a aprender, ou a aprendizagem ao longo da vida tornou-se algo fundamental no mundo actual. Daí se justifica, também, a emergência do Quociente de Aprendizagem como métrica de discernimento no âmbito de recrutamento de pessoal nas empresas.

De onde vem a resistência a aprender coisas novas? Bom, é desconfortável. Quando nos especializamos em alguma coisa e somos considerados uma autoridade no assunto, voltar ao estado de aprendiz não é atractivo. Mas estou cada vez mais convencido de ser incontornável.

Erika Andersen, autora americana e consultora nas áreas de gestão e liderança, no coaching que faz para executivos, reparou em 4 traços comuns nas pessoas que têm desenvolvida esta capacidade de aprender a aprender: aspiração; auto-consciência; curiosidade; e vulnerabilidade.

 

Aspiração

Quando estamos diante da possibilidade de aprender algo novo, ou implementar um processo novo na empresa, podemos ser tentados a dizer – ”Isso vai levar muito tempo. Se até agora as coisas funcionam bem, para quê mudar?” – mas este resistir à mudança não passa de uma atitude que exprime a falta de aspiração.

Quando aspiramos a coisas melhores, focamos a nossa vontade naquilo que de positivo obtemos quando aprendemos algo de novo. Damos mais importância ao que ganhamos no futuro com o que de novo aprendemos. Em vez de te focares nos desafios que advêm de aprender algo de novo, e focares-te nos benefícios, aumenta a aspiração.

 

Auto-consciência

O retorno, ou feedback, em relação ao que fazemos é mais importante hoje do que noutros tempos. E no que toca à aprendizagem, mais ainda. Por vezes, o maior entrave a aprender algo de novo está na nossa cabeça. Achamos que sabemos fazer bem algo que fazemos há muito tempo e não vemos a necessidade de aprender coisas novas.

Penso no ensino universitário. Sou Professor na Universidade de Coimbra apenas há 4 anos, logo, pouco tempo, e dou uma disciplina de base do curso de Engenharia Mecânica desde que entrei na Universidade. Todos os anos sinto necessidade de melhorar alguma coisa. De fazer algo de diferente que melhore o modo de aprender, de eu ensinar, e trabalhar assim a motivação intrínseca dos estudantes em relação à aprendizagem de uma disciplina que não é fácil, apesar de essencial. A minha experiência é a de que estar numa postura de podermos melhorar sempre não só é mais entusiasmante, como beneficia aqueles que estão à nossa volta.

 

Curiosidade

Todos reconhecemos a curiosidade como uma característica que todas as crianças têm quando os olhos brilham, sedentos de aprender. A curiosidade leva-nos a experimentar coisas novas e os Grandes “Apreendedores” mantêm esta motivação de aprender despertada pela curiosidade.

Quando desenvolvemos uma mente curiosa, focamo-nos nas questões e menos no desinteresse. Das questões emergem as acções, e tanto a vontade, como o interesse, acabam por despertar. Como diz Carol Sansone, investigadora em psicologia, os curiosos mudam o modo como pensam de ”Isto é uma seca…” para ”E se eu pudesse…?” Questões do tipo ”como?”, ”porquê?”, ”ora bem, e se…?”, são o combustível que precisamos para nos tornarmo-nos mais curiosos.

Quando estiveres diante de uma situação que exija aprenderes algo de novo, não adies ou desvies, mas aproveita para fazer a experiência. Basta que descubras a faísca que desperta a tua curiosidade.

 

Vulnerabilidade

Quando experimentamos aprender algo de novo é normal falhar, não fazer da forma perfeita, e podemos mesmo sentirmo-nos um pouco diminuídos com isso. Diz Erika Andersen que ”os grandes ‘apreendedores’ permitem a si mesmos serem suficientemente vulneráveis para aceitar estar na etapa de principiante.”

Faz parte.

Aliás, a investigação nos finais da década de 80 do século XX mostrou que as pessoas que são encorajadas a prever cometerem erros e a aprenderem com eles demonstram maior interesse, persistência e melhor desempenho.

Não há volta a dar. Se queres ter sucesso no século XXI e sentir-te realizado com o que fazes, aprender a adquirir capacidades (skills) e conhecimento rapidamente, e de modo continuada, tornou-se algo fundamental num mundo em rápidas mudanças. Aproveita para fazer destas quatro ferramentas – aspiração, auto-consciência, curiosidade e vulnerabilidade – os teus pontos de partida.

Professor Universitário e Investigador do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra.